“No sertão já teve um nêgo” é uma ladainha que elogia um cantador negro famoso do sertão, poeta de ofício, que prendia o povo por onde cantava. Ela só aparece no registro de Waldeloir Rego, e os versos coincidem com a abertura de um cordel.
O interesse da cantiga está justamente nesse cruzamento. De um lado, a roda de capoeira; de outro, a cantoria de desafio e os folhetos vendidos nas feiras do Nordeste. Seguir esse fio ajuda a entender de onde vêm tantas ladainhas.

Por ser fonte quase única, a cantiga em si rende pouco texto, e por isso o artigo dedica espaço ao contexto do cordel. A letra não é reproduzida, e não há gravação conhecida.
Ficha da cantiga
| Título | No sertão já teve um nêgo |
| Tipo | Ladainha |
| Registro | Rego, 1968, nº 71 |
| Gravações | Nenhuma no corpus de Reis |
| Autoria | Tradição oral; informante não indicado |
| Direitos | Letra não reproduzida |
O elogio ao cantador
Segundo Frederico Abreu Reis, a ladainha lembra um cantador negro de fama no sertão, poeta de profissão, capaz de atrair a atenção do povo onde cantava. É um elogio ao talento de quem improvisa.
A figura do cantador é central nesse universo. Segundo Reis, o canto de desafio praticado por violeiros no sertão nordestino influenciou as ladainhas da capoeira. Nos dois gêneros, a disputa poética segue um ritual parecido: apresentação, autoelogio, provocação ao adversário e perguntas e respostas.
A ligação com o cordel
Reis observa que esses versos são os mesmos que abrem o cordel “Peleja de Bernardo Nogueira com Preto Limão”, atribuído a João Martins de Atayde, com “No sertão” no lugar de “Em Natal”. Para ele, é uma adaptação local. Não achamos exemplar nem ficha de catálogo desse folheto, então só podemos relatar o que Reis diz.
Peleja é o nome dado ao duelo de cantadores em torno de um tema. Segundo a Wikipédia, as pelejas e os desafios são um dos tipos de folheto, ao lado dos romances, e o exemplo mais conhecido é a Peleja de Riachão com o Diabo, de Leandro Gomes de Barros, de 1899.
Cantadores negros do sertão
Preto Limão aparece entre cantadores negros célebres do sertão, ao lado de Pedro Nonato da Cunha, que cantava ao berimbau, segundo Mota (1921). A lista vem de Salatiel Gomes (2008), Câmara Cascudo (1984) e Nei Lopes (2004). Reis cita ainda Inácio da Catingueira, Manoel Riachão e Zé Limeira. Se Preto Limão existiu fora do cordel, não confirmamos.
Reis registra também uma crítica: Salatiel Ribeiro Gomes acusa Câmara Cascudo de reduzir a contribuição africana na cantoria. A ladainha, ao elogiar um cantador negro, ajuda a lembrar esse papel.
Como o cordel chegava à Bahia
Reis estima que os folhetos de Pernambuco e da Paraíba chegavam por rotas comerciais do sertão, nas feiras, e que a impressão na Bahia não é documentada. É nesse circuito que ele situa as ladainhas com tema de cordel.
Segundo a mesma fonte, a publicação em larga escala começou com Leandro Gomes de Barros, em 1893, seguido por Francisco das Chagas Batista, em 1902, e João Martins de Athayde, em 1908. A industrialização gráfica ampliou o alcance dos folhetos. Pela Wikipédia, os autores vendiam seus folhetos em mercados e feiras, muitas vezes eles próprios, e o cordel foi reconhecido pelo IPHAN em setembro de 2018 como patrimônio cultural imaterial do Brasil.
Quadra e sextilha: a forma do verso
Reis lembra, a partir de Câmara Cascudo, que a quadra é a forma primitiva do desafio, já popular no fim do século XVIII, enquanto a sextilha, de seis versos, surgiu depois de 1870 e se tornou a preferida. Muitas ladainhas de capoeira usam quadras, com algumas sextilhas. A Wikipédia acrescenta que a sextilha de sete sílabas é a forma mais comum do cordel. Saber disso ajuda a ouvir a ladainha como poesia metrificada, e não como fala livre.
Um desafio sobre cor e condição
Reis comenta outra peleja muito difundida em cordel, a de Inácio da Catingueira com Romano do Teixeira. O desafio gira em torno de questões raciais e de condição social: os dois trocam insultos sobre cor e status, e Romano desafia Inácio a “cantar ciência”, o que o escravo recusa. Athayde publicou uma versão em 1939, atribuída a Leandro Gomes de Barros. A história não é a mesma da ladainha deste artigo, mas mostra que a cantoria negra do sertão discutia, em verso, o lugar de cada um na sociedade.
Quem foi Leandro Gomes de Barros
Como o nome aparece várias vezes ao falar de cordel, vale situá-lo. Segundo a Wikipédia, Leandro Gomes de Barros viveu de 1865 a 1918 e é um dos autores mais importantes do começo do gênero. Seu aniversário, 19 de novembro, é lembrado como Dia do Cordelista. Ele escreveu adaptações de romances de cavalaria e também sobre temas nordestinos, como o cangaceiro Antônio Silvino. Dois de seus folhetos inspiraram partes do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, de 1955. Já Athayde, segundo a mesma fonte, viveu de 1880 a 1959 e é um dos principais nomes do passado do cordel.
Como era um folheto
Pela Wikipédia, o formato tradicional de bolso variava de 11 por 15 cm a 13,5 por 18 cm, com 8, 16, 32 ou 64 páginas. Muitos poemas eram ilustrados com xilogravuras, que também apareciam nas capas. Os poetas recitavam os versos de forma melodiosa, às vezes com viola, para atrair compradores nas feiras. Essa cena de venda e canto ao ar livre ajuda a imaginar como um verso de folheto podia virar canto de roda: ambos dependem da voz e do público.
O homem pacato e o desafio
Reis aponta um tema recorrente nas ladainhas ligadas ao cordel: o homem pacato, em casa, surpreendido por um desafio do qual não pode recuar. Segundo ele, a ideia se relaciona ao próprio jogo da capoeira, em que o jogador aceita o convite e entra na roda. Na roda, o solista canta a ladainha enquanto o berimbau toca e os jogadores ficam agachados diante do instrumento. Nada disso prova a origem desta cantiga específica, mas ajuda a entender por que o repertório de cordel encontrou lugar na capoeira.
Outras ladainhas com tema de cordel
Reis menciona outras ladainhas ligadas ao cordel. A mais presente é a Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, e Mestre Bimba canta uma versão mais curta, centrada na apresentação. Também aparecem temas de romances tradicionais portugueses, como a Donzela Teodora e Pedro Cem. Veja outro caso em Riachão Tava Cantando. Para entender onde a ladainha entra na roda, leia nossa explicação da ladainha.
O que falta confirmar
Não confirmamos o texto, a data e o autor do folheto, a identidade histórica de Preto Limão nem o informante de Rego. Atayde costuma ser creditado em folhetos que Leandro Gomes de Barros escreveu e cujos direitos ele comprou, segundo Reis, então o autor real é incerto. Termos como cantador e peleja estão no Glossário da capoeira.
Perguntas frequentes
A cantiga tem gravação?
Não conhecemos nenhuma. Só o registro de Rego, de 1968.
Quem foi Preto Limão?
Um cantador negro citado em listas secundárias. Sua existência fora do cordel não foi confirmada.
O que é uma peleja?
Um duelo poético entre cantadores sobre um tema, tipo de folheto de cordel, segundo a Wikipédia.
Quem escreveu o cordel?
Ele é atribuído a João Martins de Atayde, mas a autoria real é incerta.
Veja também
- Capoeira: a história que dança ao som do berimbau
- Os 50 maiores cantadores de capoeira do mundo e seus álbuns
- Capoeira e a música: origens, funções e instrumentos
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Fontes: Reis, tese PUC-Rio, capítulos 5 e 6; Wikipédia: Literatura de cordel.