“A Iúna É Mandingueira” é uma quadra ligada a Mestre Bimba e à ave iúna. O site Papoeira a chama de quadra de Bimba, enquanto a tese de Reis a classifica entre as ladainhas, e essa diferença de rótulo diz muito sobre como a terminologia varia.
Em vez de escolher um lado, este texto mostra por que as duas classificações existem, quem foi o mestre que deu nome ao canto e o que as fontes conseguem, e não conseguem, afirmar sobre a origem dos versos.

O autor não é creditado e o status dos direitos é incerto, então a letra não é reproduzida.
Ficha da cantiga
| Título | A Iúna É Mandingueira (variantes: “A Iuna é mandinguêra”) |
| Tipo | Quadra (Papoeira) ou ladainha (Reis) |
| Autoria | Não creditada |
| Gravações | Bimba, 1940; LP Curso de Capoeira Regional; CD FUMEB |
| Direitos | Incertos |
Quadra ou ladainha
O Papoeira a chama de quadra de Mestre Bimba, de quatro versos ou múltiplos de quatro, aberta com acompanhamento da charanga, um berimbau e dois pandeiros. Reis a classifica entre as ladainhas. Veja a diferença na página sobre a quadra.
A confusão tem explicação histórica. Segundo Reis, que cita Angelo Decânio Filho, Mestre Bimba passou a usar o nome quadra no lugar de chula para simplificar, porque a palavra era mais comum e fazia parte do programa da escola primária. Reis acrescenta que as gravações rotuladas como quadra nos discos não distinguem com clareza a ladainha da louvação. Waldeloir Rego, em 1968, usa hino da capoeira e ladainha para esse canto de abertura, e canto de entrada para a louvação.
Ou seja: a mesma peça pode ser chamada de quadra, de ladainha ou de hino, conforme o autor e a escola. Nenhum rótulo é errado, e saber de qual tradição a fonte fala evita boa parte do mal-entendido.
Como cada tipo soa
O Papoeira descreve a ladainha como o canto de abertura da roda, cantado em solo pelo mestre ou por um capoeirista experiente. Em geral só os berimbaus tocam, e é comum o mestre marcar o toque de Angola no gunga. A letra sempre tem um sentido: instruções para a roda, um relato com fundo moral, homenagem a antigos mestres ou um recado aos presentes.
A quadra, nessa mesma fonte, está associada a Bimba e à capoeira regional. Originalmente tinha quatro estrofes, de onde vem o nome, e hoje pode ter oito, doze e mais. Quem acompanha é a charanga, que também toca o São Bento Grande de regional, e é isso que dá à quadra uma cadência e uma melodia diferentes das da ladainha.
Reis completa o quadro: a ladainha costuma começar com o grito “Iê” e termina na louvação, que a segue sempre. Ele cita ainda uma exceção, um canto de Mestre Traíra no LP, classificado como ladainha mas mais parecido com o corrido pela troca entre solista e coro.
Registros
Rego a registrou em 1968, na página 51, como cantiga nº 5, dentro de um conjunto de 139 cantos numerados. Bimba a gravou em 1940 e depois no LP Curso de Capoeira Regional, e há também uma edição em CD da FUMEB. As gravações de 1940, segundo as notas de Reis, são as de Lourenço Turner, usadas como referência. Nelas, e no LP, Bimba costuma terminar o canto desacelerando de repente ao som do berimbau.
O filme Vadiação, de Robato Filho, de 1954, também traz uma canção de Bimba, mas não identificamos se é esta.
Quem foi Mestre Bimba
Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, nasceu em Salvador e morreu em Goiânia, em 5 de fevereiro de 1974. A Wikipédia em português dá 23 de novembro de 1900 como data de nascimento. Reis registra a data com incerteza, e há quem fale em 1899, por isso tratamos o ano como aproximado.
Antes de criar o método, Bimba trabalhou como carvoeiro. Criou a Luta Regional Baiana, depois chamada de capoeira regional, misturando a capoeira tradicional ao batuque, uma luta do Nordeste que desapareceu, e acrescentando golpes mais rápidos e uma dimensão musical. Mudou-se para Goiânia, onde encontrou mais apoio financeiro, mas a Wikipédia não informa em que ano.
Segundo a mesma página, ele exigia dos alunos que não bebessem nem fumassem, que não revelassem todas as técnicas, porque a surpresa é uma arma, que treinassem os fundamentos todos os dias e que mantivessem o corpo solto e perto do adversário. A página não detalha o papel do canto nesse método, e por isso não vamos além do que a fonte diz.
A roda segundo Rego
O estudo de Rego, de 1968, reúne 139 cantos numerados e descreve o começo da roda nas páginas 47 e 48. Ele trata a louvação como canto de entrada, na página 50, e os corridos na página 51, onde, nas palavras que Reis cita, eles quebram o ritmo. Essa leitura combina com a ordem que a Wikipédia em inglês também descreve: primeiro o canto solo de abertura, depois a resposta do coro, e só então os corridos, durante os quais o jogo realmente começa. Um detalhe curioso: a página 51, em que Rego registra a Iúna como cantiga nº 5, é a mesma que ele dedica aos corridos, mas Reis a classifica entre as ladainhas. Isso mostra como as fronteiras entre os tipos de canto são fluidas, e por que o mesmo texto pode receber rótulos diferentes.
A anedota de 1944
Reis cita uma reportagem de Ramagem Badaró, na revista SAGA, de 1944, retomada por Moura em 1991, sobre um confronto de Bimba na Roça do Lobo: um adversário canta esses versos e Bimba responde. Não conseguimos confirmar o episódio em outra fonte, então ele fica como relato atribuído a Reis.
Iúna, o toque
Iúna também é um toque de berimbau, listado por Rego e presente na faixa 5 da face A do LP de Bimba. O jogo de iúna, segundo Bonates (1999), é reservado aos alunos formados de Bimba. A ave que dá nome ao toque, segundo Bimba, é imitada pelo berimbau; veja o Glossário.
Incertezas
Autor e origem do texto não estão confirmados. É provável que o quarteto seja popular, e talvez anterior a Bimba, mas isso é inferência nossa. As informações sobre o toque de iúna, a ave e o jogo reservado vêm de Reis e não apareceram no capítulo 5 que consultamos de novo, então valem como indicação a conferir na tese.
Perguntas frequentes
É quadra ou ladainha?
Depende da fonte: Papoeira diz quadra, Reis diz ladainha. Bimba usava quadra no lugar de chula, o que ajuda a explicar a diferença.
Iúna é o quê?
Uma ave e também um toque de berimbau, segundo Reis.
Quem escreveu os versos?
Nenhuma fonte consultada indica o autor.
Quando Bimba gravou?
Em 1940, e depois no LP Curso de Capoeira Regional, com edição em CD pela FUMEB.
Que instrumentos acompanham uma quadra?
A charanga, formada por um berimbau e dois pandeiros, segundo o Papoeira.
Veja também
- Capoeira: a história que dança ao som do berimbau
- Nomes das músicas de capoeira: ladainha, chula e corrido
- Capoeira e a música: origens, funções e instrumentos
Quer ouvir e cantar junto? Acompanhe o canal Música Brasileira Capoeira no YouTube.
Fontes: Reis, cap. 5; Reis, cap. 6; Papoeira: tipos de cantos; Wikipédia: Mestre Bimba.