“Riachão Tava Cantando” é uma ladainha que abre o recolhimento de cantigas de Mestre Rego, publicado em 1968, e conta um desafio entre um cantador e o diabo. A história não nasceu na roda. Ela vem de um cordel do Nordeste, e a capoeira guardou só o começo.

Aqui você vê de onde veio o texto, quem foi Riachão, como as gravações antigas diferem e por que usamos “provavelmente” em alguns pontos. A letra não é reproduzida. Para cantar, procure a versão do seu grupo.
Ficha da cantiga
| Título | Riachão Tava Cantando |
| Tipo | Ladainha |
| Autoria da cantiga | Tradição oral, sem autor creditado |
| Origem do texto | Cordel “Peleja de Manoel Riachão com o Diabo”, atribuído a Leandro Gomes de Barros (c. 1899) |
| Gravações citadas | LP de Mestre Traíra (Xauã, faixa 4); gravações de Mestre Bimba de 1940 |
| Registro escrito | Mestre Rego, 1968 (cantiga nº 1) |
Um cordel dentro da roda
Segundo a tese de Leonardo Abreu Reis, o cordel Peleja de Manoel Riachão com o Diabo é atribuído, de modo unânime, a Leandro Gomes de Barros e teria sido publicado por volta de 1899. A data é apenas provável. Mestre Bimba cantava só a introdução desse cordel, e é essa abertura que as ladainhas conservam.
Na ladainha, quem canta assume o papel de narrador. O diabo desafia Riachão, e a roda escuta a cena antes de o jogo começar. Mestre Rego a coloca na abertura da roda, como um hino que exalta os feitos de um herói, e lembra que os jogadores ficam agachados ouvindo. Esse momento de escuta é parte do ritual: ninguém joga enquanto a história não termina.
Quem foi Riachão
Riachão foi um cantador negro do século XIX, pouco documentado. Câmara Cascudo o cita como negro famoso nos desafios, que ficou cego mais tarde, conforme registra Reis. Fora isso, as fontes consultadas não trazem datas nem local de nascimento, e não vamos preencher esse vazio com suposição.
O desafio, ou peleja, é um gênero conhecido da poesia popular nordestina: dois cantadores se enfrentam em versos, improvisando respostas. Colocar o diabo como adversário dá à cena um ar de lenda, e talvez explique por que o texto sobreviveu tanto tempo na memória das rodas.
Versões que circulam
Há variantes registradas. Rego anota uma que menciona a cidade de Açu. Outra versão traz “De Coité a Pimenteira”. A de Bimba, de 1940, é curta e começa com Riachão sentado. No disco de Traíra, a faixa 4 usa o título mais simples. Essas diferenças são normais em canto de tradição oral e mostram que não existe uma letra única.
Existe ainda uma cantiga parecida, “Na minha casa veio um home”, número 109 no livro de Rego, que retoma a aparição do diabo sem citar Riachão.
A peleja como gênero
Peleja é o nome do duelo de cantadores sobre um tema. Segundo a Wikipédia sobre a literatura de cordel, pelejas e desafios são um tipo de folheto, em que dois violeiros se enfrentam sobre um mote, e a Peleja de Riachão com o Diabo, de Leandro Gomes de Barros, de 1899, é um exemplo conhecido. Reis explica que o canto de desafio dos violeiros do sertão influenciou as ladainhas da capoeira. Nos dois gêneros, a disputa segue um ritual parecido: apresentação, autoelogio, provocação ao adversário, perguntas e respostas.
O que o cordel conta
Reis resume o enredo: Riachão está em Açu quando é visitado por um desconhecido negro, que se revela o diabo. O poema trata de desigualdade social, de conhecimento e de proteção divina. As versões da capoeira reproduzem o início do poema, e Mestre Bimba canta uma versão mais curta, centrada na apresentação. Reis registra que algumas xilogravuras da peleja mostram caricaturas de Leandro Gomes de Barros e de Lenin, o que dá uma ideia de como o folheto circulava e era ilustrado.
Leandro Gomes de Barros
Segundo a Wikipédia, Leandro Gomes de Barros viveu de 1865 a 1918 e é um dos autores mais importantes do começo do gênero. Seu aniversário, 19 de novembro, é lembrado como Dia do Cordelista. Ele escreveu adaptações de romances de cavalaria e também sobre temas nordestinos, como o cangaceiro Antônio Silvino, e dois de seus folhetos inspiraram partes do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, de 1955. Reis lembra que a publicação em larga escala de folhetos começou com ele, em 1893.
Forma do verso
Reis cita Câmara Cascudo para dizer que a quadra é a forma primitiva do desafio, popular no fim do século XVIII, e que a sextilha, de seis versos, surgiu depois de 1870 e virou a preferida. A Wikipédia acrescenta que a sextilha de sete sílabas é a forma mais comum do cordel, e que o cordel tradicional usa rima consoante. Quem escuta a ladainha de Riachão ouve essa métrica regular, mesmo sem perceber.
Como o cordel chegou à roda
Reis estima que os folhetos de Pernambuco e da Paraíba chegavam à Bahia por rotas comerciais do sertão e pelas feiras, e que a impressão na Bahia não é documentada. Em 2018, o IPHAN reconheceu o cordel como patrimônio cultural imaterial brasileiro, segundo a Wikipédia. A ladainha de Riachão é, assim, um caso em que dois patrimônios se encontram: o cordel e a capoeira.
Reis lembra que há outras ladainhas com tema de cordel. Veja No sertão já teve um nêgo, que parece vir de uma peleja de cantadores, e Eu tava em casa, uma família de ladainhas sobre um homem chamado para o desafio.
O homem pacato e o desafio
Reis aponta um tema recorrente: o homem pacato, em casa, surpreendido por um desafio do qual não pode recuar. Segundo ele, a ideia se relaciona ao jogo da capoeira, em que o jogador aceita o convite e entra na roda. Essa leitura é de Reis, e não prova a origem desta cantiga, mas ajuda a entender por que o desafio com o diabo ficou na memória das rodas.
Direitos e uso responsável
A ladainha é de tradição oral e, tudo indica, está em domínio público. O cordel de cerca de 1899 também deve estar, e a Wikipédia indica que Leandro Gomes de Barros viveu de 1865 a 1918, mas não verificamos a situação dos direitos de cada edição, então tratamos esse ponto com cautela. Por cautela, publicamos apenas a explicação.
Para estudar a ladainha
Se você quer entender a estrutura desse canto, comece pelo nosso guia sobre os nomes das músicas de capoeira e pela visão geral em Capoeira e a música. Para ouvir cantigas de grupo, visite nosso canal no YouTube.
Perguntas frequentes
Quem escreveu Riachão Tava Cantando?
A cantiga de roda é de tradição oral. O texto de origem é o cordel atribuído a Leandro Gomes de Barros, por volta de 1899, segundo Leonardo Abreu Reis.
É ladainha ou corrido?
Ladainha. Ela é cantada em solo, na abertura da roda, enquanto os jogadores ouvem agachados.
Riachão existiu?
Foi um cantador do século XIX citado por Câmara Cascudo. As fontes consultadas trazem poucos dados sobre ele.
Veja também
- Nomes das músicas de capoeira: ladainha, chula e corrido
- Capoeira e a música: origens, funções e instrumentos
- Os 50 maiores cantadores de capoeira do mundo e seus álbuns
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Fontes: Leonardo Abreu Reis, tese “Cantos de capoeira” (PUC-Rio, 2009), cap. 5; Reis, cap. 6; Reis, glossário de gravações; Papoeira, tipos de cantos da capoeira.