“Torpedeira Piauí” é uma ladainha que funciona como notícia cantada. Ela guarda a lembrança de um conflito de dezembro de 1914 em Salvador, entre capoeiras e marinheiros de um torpedeiro, que terminou com a morte do capoeirista Pedro Mineiro.
O caso mistura porto, polícia, política e navalha. Por isso a cantiga rende mais quando lida junto com a pesquisa histórica, que mostra como a fronteira entre a ordem e a desordem era fina na Bahia daquela época.

A cantiga chegou até nós pelo registro de Waldeloir Rego, em 1968, em duas versões. Não há autor creditado nem gravação conhecida no corpus de Reis, então tratamos a tradição como oral e não reproduzimos a transcrição, que é protegida como trabalho do pesquisador.
Ficha da cantiga
| Título | Torpedeira Piauí (também grafada “Topedêra Piauí”) |
| Tipo | Ladainha, em duas versões |
| Registro | Waldeloir Rego, 1968 (nº 76 e nº 126) |
| Autoria | Tradição oral, sem autor creditado |
| Gravações | Nenhuma confirmada |
| Direitos | Letra não reproduzida |
O que a cantiga lembra
A versão mais ligada ao fato fala de um marinheiro que chega provocando e termina anunciando a morte de Pedro Mineiro dentro da Secretaria de Segurança Pública. A outra versão trata de um marujo que faz desordem no porto da Bahia e traz uma advertência sobre as águas do Japão. Segundo Reis, nenhuma das duas explica as causas, apenas anunciam desfechos ligados a conflitos maiores.
O que a história documenta
A pesquisadora Adriana Albert Dias, em artigo de 2005 na revista Afro-Ásia, reconstitui o caso, conhecido como crime do Saldanha. Em 26 de dezembro de 1914, no botequim do Galinho, na Sé, Pedro Mineiro e outros capoeiras, entre eles Sebastião de Souza e Antônio José Freire, atacaram marinheiros do torpedeiro Piauhy. Dois marinheiros morreram: José Domingos dos Santos e Francisco Hollanda Wanderley.
Antes disso havia tensão no bairro do Saldanha, com a prisão de prostitutas que motivou protestos de marujos. A causa imediata é incerta. A versão mais difundida fala de ciúme, enquanto o sargento do posto da Sé relata uma agressão anterior a Pedro Mineiro.
Durante o inquérito, os acusados se apresentaram como “secretas”, agentes contratados pela polícia. Em 28 de dezembro, um marinheiro atirou em Pedro Mineiro dentro da chefatura. Segundo Dias, ele foi levado ao hospital Santa Izabel, e os marinheiros voltaram ao navio, porque a Marinha tinha regras próprias.
A troca de cartas e o fim de Pedro Mineiro
Houve ainda uma troca de cartas públicas entre o chefe de polícia e o capitão do navio. O chefe de polícia condenou o atentado como afronta à polícia, e o comandante, Carlos Alves de Souza, negou que houvesse autorização para marinheiros armados em terra e comparou a conduta deles à dos agentes secretos da polícia. A resposta do chefe foi irônica. O episódio revela a rivalidade entre as forças.
Pedro Mineiro aparece nas fontes como protegido desse chefe de polícia, chamado “Nosso Padrinho” nos manuscritos de Mestre Noronha. Segundo Dias, ele nasceu em Ouro Preto em 1887, tinha 27 anos e era conhecido como valentão, com passagens por júri e prisão. Tentou se matar com uma navalha em janeiro de 1915, mas um policial impediu. Morreu no dia seguinte, no Santa Izabel, e foi enterrado no cemitério da Quinta dos Lázaros. Antes disso, teria confessado que outros dois eram os autores das mortes dos marinheiros. Dias acrescenta que sua figura virou mito popular.
Onde as fontes divergem
O nome do chefe de polícia aparece como Álvaro Cova em Dias e em Reis, e como Álvaro Costa em um artigo do Empório do Direito. Não resolvemos essa diferença.
Há outras diferenças entre as fontes. O Empório do Direito, uma coluna de opinião baseada em jornais da época, diz que Pedro Mineiro chefiou o grupo e que o marinheiro atirou diante do delegado, e afirma que o caso “ficou por isso mesmo”, sem condenação formal. O mesmo texto indica que a data do atentado é 28 de dezembro, enquanto o crime foi no dia 26. Reis também levanta a hipótese de que a primeira versão se refira a uma guerra, por causa do Japão, o que não combina com 1914, e por isso a data de composição das duas versões não está estabelecida.
Fiéis de navalha: o mundo do porto
O artigo de Dias se chama “Os fiéis da navalha”. O fiel era um cordão usado a bordo para prender objetos, e o fiel de navalha prendia a navalha, instrumento de trabalho dos marinheiros, à calça. A autora sugere que o fiel migrou do mundo naval para a capoeira, a partir de relatos de Mestre Noronha e de Noca de Jacó sobre o lenço de seda e o lançamento da navalha presa a um cordão.
Marinheiros e capoeiras frequentavam os mesmos botequins, casas de jogo e prostíbulos, como o botequim do Galinho. Os dois grupos tinham origem social pobre e negra, e muitas brigas começavam por causa de mulheres.
Capoeiras, polícia e política
Dias mostra que, desde o Império, capoeiras atuavam como capangas e cabos eleitorais, e que isso continuou na República. Em 1914, um tumulto no Conselho Municipal envolveu capoeiras, e em 1919 um comício em favor de Rui Barbosa terminou em tiroteio. Pedro Mineiro teria trabalhado como capanga do chefe de polícia.
Muitos capoeiras foram incorporados à polícia como guarda-costas ou agentes, enquanto a repressão continuava. A conclusão da autora é que a separação entre ordem e desordem não era rígida: a desordem estava dentro do próprio poder.
Por que importa para a roda
A ladainha serve de jornal, como os cordéis. Na leitura de Dias, o episódio mostra que a polícia e a Marinha disputavam autoridade, e que o capoeirista Pedro Mineiro, ao mesmo tempo protegido do poder e alvo dele, ficou no meio. Segundo o Empório do Direito, ele respondeu a pelo menos quatro júris e se declarou empregado da polícia, agindo como subdelegado em nome do chefe e do delegado. Quem canta lembra um episódio em que a violência da polícia e da Marinha atingiu a capoeira. Para outros casos de memória histórica cantada, leia Quando Eu Morrer e a página sobre a ladainha.
O que falta confirmar
Não achamos o cantor que informou Rego, a data de composição nem o sentido do nome do navio na primeira versão. O livro de Rego não foi consultado diretamente, então as referências vêm da tese de Reis.
Perguntas frequentes
Quem foi Pedro Mineiro?
Capoeirista de Salvador, nascido em Ouro Preto em 1887 segundo Dias, que morreu em janeiro de 1915, depois de levar um tiro de um marinheiro na Secretaria de Segurança Pública, em dezembro de 1914.
Quem compôs a cantiga?
Não há autor creditado. É tradição oral registrada por Rego em 1968.
A cantiga tem gravação?
Não conhecemos nenhuma.
O que é fiel de navalha?
Um cordão que prendia a navalha à roupa dos marinheiros, segundo Dias.
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Fontes: Dias, Os fiéis da navalha, Afro-Ásia 32 (2005); Reis, tese PUC-Rio, capítulo 5; Empório do Direito: Pedro Mineiro.