“Dona Isabel” é uma cantiga de Mestre Toni Vargas que questiona a imagem da princesa que “libertou” os escravizados. Para o autor, a abolição não foi um presente: foi resultado da resistência de quem foi escravizado. A cantiga cobra que a história seja contada por inteiro, e é por isso que se tornou um símbolo de uma capoeira consciente.
Para ouvir a cantiga com atenção, vale conhecer a figura histórica a que ela responde, o que a lei de 1888 realmente fez e como a própria capoeira foi tratada logo depois da abolição. Este texto reúne esses pontos a partir de fontes abertas.

O texto tem autor creditado e continua protegido por direitos autorais, então aqui você lê o contexto e o sentido, sem a letra. Para cantar ou ouvir, use os canais oficiais do artista.
Ficha da cantiga
| Título | Dona Isabel (também citada como “Dona Isabel, que história é essa”) |
| Autor | Mestre Toni Vargas (crédito no Letras) |
| Tipo | Corrido ou ladainha, conforme a fonte |
| Álbum | CD “Liberdade” (ano não confirmado), segundo Quadros |
| Tema | Crítica ao relato oficial da abolição |
| Direitos | Protegida |
O que a cantiga questiona
Segundo o artigo de Quadros apresentado na ANPUH, “Dona Isabel” contesta a ideia de que a princesa Isabel acabou com a escravidão. A cantiga atribui a abolição à luta dos escravizados e pede que a história “real” seja ensinada nas escolas. Também homenageia Zumbi, os quilombos e a capoeira como caminhos de liberdade.
O artigo abre com o dispositivo do Código Penal de 1890 que criminalizava a capoeira. Dois anos antes, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea havia abolido a escravidão. A distância entre as duas datas ajuda a entender por que a cantiga desconfia do discurso de que a liberdade foi concedida.
Quem foi a princesa Isabel
Isabel nasceu em 29 de julho de 1846, no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, filha mais velha de Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina. Era princesa imperial e herdeira presumida do trono. A Wikipédia em português registra que ela governou como regente em três períodos: em 1871 e 1872, durante a viagem do pai à Europa, quando sancionou a Lei do Ventre Livre em 27 de setembro de 1871; em 1876 e 1877; e a partir de 30 de junho de 1887, quando demitiu o gabinete do barão de Cotegipe, contrário à abolição, e nomeou João Alfredo.
A Lei Áurea, lei nº 3.353, foi apresentada à Câmara em 8 de maio de 1888 pelo ministro Rodrigo Augusto da Silva e aprovada em poucos dias. Foi por ela que Isabel ganhou o título de a Redentora. A mesma página diz que a princesa trabalhou com abolicionistas como André Rebouças e José do Patrocínio, e que este criou a Guarda Negra da Redentora para protegê-la. Joaquim Nabuco defendeu o projeto no Parlamento.
Em 15 de novembro de 1889 foi proclamada a República, e a família imperial foi exilada dois dias depois. Isabel passou o resto da vida na França e morreu em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos. Os restos foram trazidos ao Brasil em 1953 e sepultados de novo em Petrópolis em 1971.
A página também reconhece incertezas. A autoria do projeto da Lei Áurea é discutida, com nomes como Antônio da Silva Prado, Ferreira Viana e João Alfredo citados sem conclusão, e o papel pessoal de Isabel na redação continua incerto. A afirmação de que ela não era racista é atribuída a um historiador citado, e não apresentada como fato estabelecido.
O que a lei não fez
A Wikipédia em português descreve a Lei Áurea como um texto de dois artigos: o primeiro declara extinta a escravidão, e o segundo revoga as disposições em contrário. Não previu indenização aos proprietários e também não trouxe política de acesso a terra, moradia ou trabalho aos libertos. Segundo a mesma fonte, as pressões do movimento abolicionista, as fugas em massa, os quilombos e a recusa do Exército em capturar fugitivos tiveram peso na decisão.
É nesse ponto que a cantiga encontra o debate histórico. Os historiadores divergem sobre quanto a lei foi um gesto da monarquia e quanto foi resultado da pressão popular e das revoltas de escravizados, e a crítica que a cantiga faz não ignora essa discussão: ela escolhe um lado e o canta.
A capoeira depois da abolição
A lembrança do Código Penal de 1890 no início do artigo de Quadros faz sentido. A Wikipédia em português informa que o código da República proibiu a capoeira no artigo 402, que a chamava de capoeiragem e a descrevia como exercício de agilidade e destreza corporal em ruas e praças. A pena era de prisão, agravada para os membros de maltas e dobrada para seus chefes. A página traz uma incoerência quanto ao tempo de prisão, que aparece como de dois a seis anos num trecho e de dois a seis meses no texto da lei citado, e por isso não damos um número.
A repressão continuou nos anos 1930, e só em 1940, segundo a mesma página, a capoeira saiu do Código Penal. Em 2008, o Iphan registrou a roda de capoeira como bem cultural brasileiro, e em 26 de novembro de 2014 a Unesco a proclamou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A distância entre esses dois momentos é parte do que a cantiga lembra.
Corrido ou ladainha?
As fontes divergem no rótulo. O site La Laue a coloca entre as ladainhas, com o título “Dona Isabel, que história é essa”. O Letras não indica tipo. Como o formato varia de grupo para grupo, tratamos a classificação como incerta.
Quem é Toni Vargas
Segundo o La Laue, Toni Vargas nasceu no Rio de Janeiro em 5 de abril de 1958. Começou aos 10 anos com Mestre Rony, no Grupo Palmares, passou pelo Corda Bamba, de Mestre Touro, e depois pelo Senzala, sob Mestre Peixinho. Em 1985 foi o primeiro formado do Senzala, e é conhecido pela voz grave. O Last.fm indica Engenho de Dentro como local de nascimento; as duas informações são de fontes diferentes e não foram cruzadas com uma terceira.
Contexto histórico
Quadros situa as cantigas de Toni Vargas no contexto do Movimento Negro Unificado, de 1978, do “quilombismo” de Abdias do Nascimento e da negritude. É uma leitura da autora, e ajuda a entender que a capoeira cantada também é discurso político. Ela mesma avisa que não entrevistou os mestres. Para a história da capoeira, leia Capoeira: a história que dança ao som do berimbau.
O que não está confirmado
O ano de lançamento do CD “Liberdade” não foi confirmado, e a página de significado do Letras não abriu na nossa checagem. Por isso evitamos datas.
Perguntas frequentes
Quem compôs Dona Isabel?
Mestre Toni Vargas, segundo o crédito no Letras.
O que a cantiga critica?
A ideia de que a princesa Isabel acabou sozinha com a escravidão, segundo o artigo de Quadros.
Posso publicar a letra?
Não sem autorização. A obra tem autor identificado.
A Lei Áurea indenizou os libertos?
Não. Segundo a Wikipédia, a lei não previu indenização aos proprietários nem política de terra, moradia ou trabalho para os libertos.
A capoeira foi proibida depois da abolição?
Sim. O Código Penal de 1890 a proibiu, e ela só deixou de ser crime em 1940, segundo a Wikipédia.
Veja também
- Capoeira: a história que dança ao som do berimbau
- Os 50 maiores cantadores de capoeira do mundo e seus álbuns
- Capoeira e a música: origens, funções e instrumentos
Quer ouvir e cantar junto? Acompanhe o canal Música Brasileira Capoeira no YouTube.
Fontes: Quadros, artigo sobre cantigas e Movimento Negro (ANPUH, 2024); La Laue: Mestre Toni Vargas; Letras: Dona Isabel; Wikipédia: Isabel do Brasil; Wikipédia: Capoeira.