“Quando Eu Morrer” é uma das cantigas de capoeira mais ligadas à lenda de Besouro, o capoeirista de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano. Ela aparece em discos de mestres antigos e, em 1968, serviu de ponto de partida para uma canção que ganhou um festival de samba.

A cantiga é curta, mas dá o que conversar. Dependendo do disco, ela é tratada como ladainha ou como corrido, e as letras trazem pequenas diferenças de uma gravação para outra. Aqui você encontra o que as fontes consultadas permitem afirmar, sem inventar o que ninguém registrou.
Ficha da cantiga
| Título | Quando Eu Morrer |
| Tipo | Ladainha no disco de Mestre Traíra; corrido na versão de Mestre Pastinha |
| Autoria da cantiga de roda | Não creditada nas fontes consultadas (tradição oral) |
| Autoria da canção de 1968 | Baden Powell e Paulo César Pinheiro |
| Tema | Besouro e o cortejo de despedida |
| Gravações citadas | LP de Mestre Traíra (selo Xauã); “Capoeira Angola: Mestre Pastinha e sua academia” (Philips, 1969) |
Duas gravações, dois nomes para o mesmo canto
No LP atribuído a Mestre Traíra, pela editora Xauã, a cantiga é a terceira faixa e vem classificada como ladainha. No disco que Mestre Pastinha gravou em 1969, ela é a segunda faixa e aparece como corrido. O motivo da diferença, segundo a tese de Leonardo Abreu Reis, está na introdução: na versão de Pastinha ela é repetida três vezes, o que aproxima o canto do corrido.
Reis faz ainda outra observação. Entre as ladainhas que ele estudou, esta é a única que não termina com a louvação de sempre. Ela tem a sua própria resposta do coro. O pesquisador supõe que dois cantos diferentes podem ter sido percebidos, com o tempo, como um só.
Besouro, o berimbau e o cemitério
O assunto é a morte de Besouro, personagem lendário de Santo Amaro da Purificação. O texto fala de um berimbau tocado na porta do cemitério e traz o apelido “cordão de ouro”, repetido pelo coro. Para a história do próprio capoeirista, veja nosso artigo sobre Besouro Mangangá.
Na versão de Pastinha, o informante foi Mestre Canjiquinha. Reis anota que o canto teria sido, supostamente, entoado por Waldomiro Malvadeza. A informação vem de uma única tese, e por isso fica como registro, não como certeza.
Do jogo de capoeira ao palco do samba
Em 1967, Baden Powell recolheu toques e cantigas com Mestre Canjiquinha. No ano seguinte, ele e Paulo César Pinheiro venceram a primeira Bienal do Samba, da TV Record, em maio de 1968, com uma canção que reaproveita letra e música desse canto, acrescenta outros versos e foi interpretada por Elis Regina.
Essa canção tem autores identificados e continua protegida por direitos autorais. Por isso não reproduzimos seus versos. A tese de Reis não informa o título da música premiada, mas fontes abertas a identificam como Lapinha.
Lapinha: a canção que nasceu da cantiga
A tese de Reis não nomeia a música de 1968, mas duas fontes abertas a identificam como Lapinha. O Lyrical Brazil informa que ela foi escrita por Baden Powell e Paulo César Pinheiro e cantada por Elis Regina no festival de samba da TV Record, onde ficou em primeiro lugar. O festival foi criado, em parte, em resposta às queixas de que os festivais de MPB davam pouco espaço ao samba. Segundo o mesmo site, Powell ouviu o mestre Canjiquinha cantar o refrão, junto com o Quarteto em Cy, e o usou em seu novo afro-samba.
O refrão remete a Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, também chamado Cordão de Ouro. Sobre ele, o Lyrical Brazil diz que foi morto a facadas aos 24 anos, supostamente pelas costas, o que alimentou sua idolatria na capoeira. Essa idade não bate com as datas de nascimento e morte que a Wikipédia dá, por volta de 1895 e 1924, e como as datas são aproximadas em todas as fontes, não adotamos nenhuma idade. Para a história de Besouro, leia o nosso artigo sobre Besouro Mangangá.
O que Lapinha quer dizer
Segundo o Lyrical Brazil, Dorival Caymmi explicou que Lapinha se refere ao Largo da Lapinha, em Salvador, onde tradicionalmente aconteciam festas cívicas. A rima com uma palavra do refrão também pode ter influenciado a escolha. É uma explicação sobre o título da canção de 1968, e não sobre a cantiga de roda.
Paulo César Pinheiro e a capoeira
O Lyrical Brazil conta que Pinheiro tinha 19 anos quando foi escolhido como letrista de Powell, que conheceu por meio de um primo dele, João de Aquino. A canção lançou sua carreira. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Pinheiro (nascido em 1949) diz que Lapinha foi sua primeira experiência com o universo da capoeira, em 1968, ao lado de Baden Powell, que viveu na Bahia e trouxe uma cantiga associada a Besouro. Ele se inspirou em Besouro depois de ler sobre o personagem em Mar Morto, de Jorge Amado.
Dali nasceu o musical Besouro Cordão de Ouro, que, segundo a entrevista, ficou cerca de dez anos em cartaz pelo Brasil. Pinheiro pesquisou em Santo Amaro, na Bahia, e gravou depoimentos de idosos. A trilha da peça virou o CD Capoeira de Besouro, de 2010, com 14 faixas, cada uma baseada em um toque de berimbau, e com participação de Mestre Camisa e Lobisomem. A entrevista também lembra que a capoeira foi criminalizada pelo Código Penal de 1890.
Mestre Canjiquinha
Canjiquinha aparece em três pontos desta história: foi o informante da versão de Pastinha no disco de 1969, segundo Reis; foi quem cantou o refrão para Baden Powell, segundo o Lyrical Brazil; e aparece na tese como fonte do toque chamado aviso, usado como sentinela contra a chegada da polícia, que ele aprendeu com Aberrê. Pelo que as fontes mostram, ele foi uma ponte entre a roda e o disco. Para saber mais sobre esse toque, veja nossa página sobre bateria e toques.
Como a cantiga aparece na roda
A ladainha é cantada pelo mestre, em solo, na abertura da roda, enquanto os dois jogadores ficam agachados diante do berimbau, de acordo com o site Papoeira. Como esta cantiga tem coro próprio, ela foge um pouco da regra e pede um grupo que conheça a resposta.
Sobre a letra e os direitos
Nenhuma fonte consultada indica autor ou data para a cantiga de roda, que tudo indica ser de tradição oral. Mesmo assim, uma canção protegida nasceu dela, e a situação jurídica de cada versão gravada é incerta. Em caso de dúvida, tratamos a música como protegida e não publicamos a letra.
Perguntas frequentes
“Quando Eu Morrer” é ladainha ou corrido?
Depende da gravação. No disco de Mestre Traíra ela é classificada como ladainha. No de Mestre Pastinha, de 1969, aparece como corrido, por causa da introdução repetida três vezes.
Quem escreveu “Quando Eu Morrer”?
As fontes consultadas não creditam autor à cantiga de roda. A canção de 1968 que a reaproveita é de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
A cantiga fala de Besouro?
Sim. O tema é a morte de Besouro, personagem lendário de Santo Amaro da Purificação, segundo a tese de Leonardo Abreu Reis.
Veja também
- Besouro Mangangá: significado, autor e história da cantiga de capoeira
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Fontes: Leonardo Abreu Reis, tese “Cantos de capoeira” (PUC-Rio, 2009), cap. 5; Reis, cap. 6; Reis, glossário de gravações; Papoeira, tipos de cantos da capoeira; Lyrical Brazil: Lapinha; Jornal do Brasil: Paulo César Pinheiro.