Por Mestre Parafuso
A capoeira não existe no silêncio. Para entender a nossa arte, é preciso primeiro escutar as vozes que ecoam dentro da roda, pois cada cântico carrega séculos de história, suor e resistência. Ao longo dos meus anos de ensino e nas minhas viagens organizando eventos internacionais, sempre repito aos meus alunos que não basta saber dar um rabo de arraia ou uma meia-lua de compasso; é fundamental saber cantar — e conhecer os instrumentos da bateria. As músicas da capoeira não são apenas acompanhamentos sonoros, elas são o roteiro do jogo, a oração antes do combate e a crônica do nosso povo. Hoje, vamos mergulhar profundamente nos nomes e nos significados das canções que formam a espinha dorsal da nossa cultura, explorando como cada melodia dita o ritmo da vida e do jogo.
Ladainha: a abertura da roda
As músicas na capoeira são divididas em categorias narrativas muito específicas, começando sempre pela “Ladainha”. A Ladainha é o momento de consagração e respeito. Trata-se de um lamento ou uma oração cantada exclusivamente por um mestre ou pelo capoeirista mais graduado que está comandando a roda. Durante a Ladainha, o jogo ainda não começou; os dois jogadores permanecem agachados ao pé do berimbau gunga, absorvendo a sabedoria das palavras. Uma das ladainhas mais famosas (confira também as músicas de capoeira mais populares), cantada frequentemente nas rodas de Capoeira Angola, é “Iê, Maior é Deus”. Essa canção reflete a humildade que o capoeirista deve ter diante da vida e dos mistérios do mundo. A ladainha conta uma história, muitas vezes sobre a escravidão, sobre lendas da capoeira como Mestre Pastinha ou Mestre Bimba, ou sobre os perigos da traição. É um aviso em forma de poesia. A estrutura é melancólica, profunda e exige total atenção da roda, preparando o espírito para o embate que se aproxima.
Chula ou louvação
Logo após a Ladainha, entramos no momento da “Chula” ou “Louvação”. Esta é a transição, a saudação onde o cantador saúda a Deus, ao seu mestre, e aos elementos sagrados da capoeira. Ouve-se o famoso “Iê, Viva meu Deus” e a roda responde em coro, como uma só voz, confirmando aquela louvação. É o momento em que a energia individual se transforma em energia coletiva. O cantador puxa os versos curtos e o coro responde imediatamente com a mesma frase. Essa interação serve para aquecer as gargantas e alinhar o batimento cardíaco de todos os presentes no recinto. Sem essa união vocal, o axé – a energia vital da roda – simplesmente não se manifesta.
Corridos: o ritmo do jogo
Quando o jogo finalmente começa e os corpos se entrelaçam no ar, a música transita para os “Corridos”. O Corrido é o combustível do jogo de capoeira. São músicas de refrão rápido, vibrante e repetitivo, que ditam a velocidade e a intenção dos capoeiristas. Entre os corridos mais célebres do mundo está “Paranaê, Paraná”. Muitos cantam essa música sem conhecer sua profundidade histórica. Segundo uma interpretação muito difundida entre capoeiristas, ela está ligada à Guerra do Paraguai, quando muitos negros escravizados foram enviados para o fronte de batalha em troca de uma falsa promessa de liberdade. Eles cantavam sobre o rio Paraná, que separava as tropas, transformando a dor da guerra em um hino de sobrevivência que hoje cantamos com alegria.
Corridos famosos da roda
Outro corrido lendário é “Zum Zum Zum, Besouro Mangangá”. Esta música conta a história real e mítica de Manuel Henrique Pereira, o famoso Besouro Mangangá, um capoeirista da Bahia que, segundo as lendas, tinha o corpo fechado e podia se transformar em um besouro para escapar das perseguições policiais. Cantar essa música na roda é invocar a proteção e a astúcia desse grande guerreiro. Há também “Marinheiro Só”, uma canção que fala sobre a solidão e a resiliência do navegante. Na capoeira, o “marinheiro” é uma metáfora para o próprio capoeirista que precisa aprender a navegar pelas ondas da vida, caindo e se levantando com ginga e malícia. A manteiga também é um tema recorrente, como na música “A Manteiga Derramou”, que pode parecer uma simples cantiga infantil, mas na verdade fala sobre a queda do adversário; quando a manteiga derrama, significa que alguém escorregou, perdeu o equilíbrio físico ou mental dentro da roda.
Cantigas que contam a história do povo
Cada canção de capoeira é um livro de história aberto. “Dona Maria como vai você”, “Sai de baixo, sai de cima”, “Vou dizer à minha mulher que a capoeira me venceu”. Todas elas narram o cotidiano, o humor, a luta de classes e as estratégias de sobrevivência do povo brasileiro. Quando canto nessas rodas pelo mundo afora, sinto o peso e a glória dessas palavras. A música da capoeira não foi escrita em partituras luxuosas; ela foi cravada na memória de um povo que se recusou a ser silenciado. Portanto, da próxima vez que você ouvir o coro responder em uma roda, saiba que não é apenas música, é a celebração ininterrupta de uma cultura invencível.