Dandara: o corrido que homenageia a guerreira de Palmares

Duas pessoas em trajes tradicionais sentadas em uma praça

“Dandara” é um corrido que homenageia a mulher de Zumbi, guerreira de Palmares que, segundo os relatos, preferiu a morte a voltar à escravidão. A cantiga não tem autor creditado, e a vida de Dandara é pouco documentada, o que pede cuidado ao falar dela.

Quem pesquisa o assunto esbarra logo num fato incômodo: a história de Palmares foi contada, em boa parte, por quem atacou o quilombo, e as mulheres quase não aparecem nos registros. Por isso este texto separa o que está documentado do que chegou até nós pela tradição.

Duas pessoas em trajes tradicionais sentadas em uma praça
Imagem ilustrativa. Foto: Marcelo Gonzalez / Pexels

Aqui separamos o que está registrado do que é narrativa transmitida pela tradição. A letra não é reproduzida.

Ficha da cantiga

TítuloDandara
TipoCorrido (La Laue)
AutoriaNão creditada
TemaHomenagem à guerreira de Palmares
DireitosNão está claro; não afirmamos domínio público

O que a cantiga celebra

Segundo o La Laue, a cantiga homenageia a mulher de Zumbi, guerreira que prefere a morte ao retorno à escravidão. O autor não é creditado, e nenhuma outra fonte indica quem a compôs. Por isso não dizemos que está em domínio público: sem saber quem escreveu, também não dá para saber se a obra é livre.

O que se sabe sobre Dandara

A Wikipédia em português diz que Dandara viveu no século XVII, no Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, na antiga capitania de Pernambuco, hoje território de Alagoas. A página indica que ela nasceu por volta de 1654, em local desconhecido, e morreu em 6 de fevereiro de 1694. Foi mulher de Zumbi e teve com ele três filhos, Aristogíton, Harmódio e Motumbo.

No cotidiano do quilombo, ela teria participado da defesa contra os ataques externos e de tarefas como a caça e a lavoura. A comunidade praticava a policultura, com milho, mandioca, feijão, batata-doce, cana-de-açúcar e banana. É esse o retrato mais sólido que a fonte oferece, e ele já mostra por que a figura de Dandara importa: a vida em Palmares dependia do trabalho e da luta de homens e mulheres.

A própria página admite os limites. A vida de Dandara é pouco documentada, não se conhece nenhuma imagem autêntica dela e os registros sobre suas contribuições são raros. A pesquisa sobre mulheres na história é recente, o que explica parte desse silêncio.

O que é narrativa

Várias informações populares sobre Dandara circulam como fato, mas não têm prova documental. Entre elas:

  • Não se sabe se ela nasceu no Brasil ou na África, e o relato de que se juntou ainda criança aos negros que resistiam à escravidão não está estabelecido.
  • Que ela tenha pressionado Zumbi a romper com Ganga Zumba é um relato, não um fato documentado.
  • A Wikipédia também afirma que ela dominava técnicas de capoeira, mas sem prova.
  • O relato mais repetido sobre a morte diz que, depois de recusar o acordo proposto pelos portugueses, ela foi capturada e se atirou de uma pedreira para não voltar à escravidão. A página trata isso como relato de algumas referências, sem documento direto.
  • Também não se sabe como ela conheceu Zumbi nem como era a vida do casal.

Preferimos marcar tudo isso como tradição. Isso não diminui a importância dela: uma memória pode ser real como símbolo mesmo quando falta documento.

Uma árvore genealógica que vem de segunda mão

A página sobre Dandara apresenta uma árvore genealógica baseada em fontes secundárias, como a TV Brasil e os autores Reginaldo de Souza Santos e Décio Freitas. Nela, Ganga Zumba, primeiro grande chefe do quilombo, aparece como tio de Zumbi, e a ligação dele com a princesa Aqualtune também vem dessas fontes. Vale tratar esses vínculos como relatos de segunda mão: nenhum deles foi confirmado por documento da época, e a própria Wikipédia deixa claro que a origem familiar de Dandara continua em aberto.

O contexto de Palmares

Para entender a escolha que a tradição atribui a Dandara, ajuda lembrar o que aconteceu em Palmares. Segundo a Wikipédia em português sobre Zumbi, o quilombo era uma república de onze mocambos, espalhados por mais de 200 quilômetros, com capital no Cerco do Macaco. Em 1678, o governador ofereceu paz e liberdade aos fugitivos a Ganga Zumba, em troca da submissão à Coroa portuguesa. Ganga Zumba aceitou. Zumbi recusou, porque não admitia que alguns fossem livres enquanto outros continuariam escravizados, e por volta de 1680 assumiu a liderança da resistência.

Em 1694, Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo atacaram o Cerco do Macaco, que caiu. Zumbi, ferido, escapou, mas foi traído por Antônio Soares e morto em 20 de novembro de 1695. A cabeça dele foi exposta em Recife. Pela data que a fonte indica, Dandara teria morrido em fevereiro de 1694, no mesmo ano da queda do Macaco.

A memória no calendário

O 20 de novembro, data da morte de Zumbi, foi adotado como Dia da Consciência Negra em 1995. Entrou no calendário escolar em 2003, foi instituído pela lei nº 12.519 em 2011 e passou a ser feriado nacional em 2024, segundo a Wikipédia. Nesse calendário, Zumbi ocupa o centro. Dandara aparece na memória popular, na literatura, no cinema e no carnaval, como mostram os exemplos a seguir.

Dandara na cultura brasileira

Sem imagens nem documentos, a memória de Dandara foi construída pela arte. A escritora Jarid Arraes escreveu sobre ela em cordel, no livro Heroínas Negras Brasileiras (2020), e no volume As lendas de Dandara (2017), que mistura história e fantasia. No cinema, a atriz Zezé Motta a interpretou em Quilombo (1984), de Cacá Diegues. Em 2018, o estúdio brasileiro Long Hat House lançou o jogo Dandara, inspirado na guerreira.

O carnaval também a celebrou. A Mangueira a homenageou em 2019, associando-a a Marielle Franco, e a Acadêmicos do Jardim Bangu fez o mesmo em 2023. Em 2019 também saiu o álbum Samba de Dandara.

Reconhecimento oficial

Em 24 de abril de 2019, a lei nº 13.816 inscreveu o nome de Dandara dos Palmares no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que fica no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. É um fato jurídico documentado. Convém lembrar que a lei reconhece o simbolismo da figura, e não resolve as dúvidas históricas sobre a vida dela.

Para ler mais

O contexto de Palmares está em nossa história da capoeira, e o corrido sobre a morte de Zumbi, em Zumbi Morreu.

Perguntas frequentes

Dandara existiu?

Sim, é citada como mulher de Zumbi, mas a vida dela é pouco documentada e não se conhece imagem autêntica.

Quando ela morreu?

Em 6 de fevereiro de 1694, segundo a Wikipédia em português.

Ela se jogou de uma pedreira?

É o relato mais repetido, mas aparece como tradição, sem prova documental direta.

Dandara praticava capoeira?

A Wikipédia afirma que sim, mas sem prova. Tratamos como tradição.

Quem compôs a cantiga?

Nenhuma fonte consultada indica o autor.

Onde ouvir e ler a letra da cantiga?

A letra e a tradução em inglês ficam na página da música no La Laue, indicada nas fontes. Por não haver autor identificado, não reproduzimos o texto aqui. Se você conhece a origem do corrido ou uma gravação antiga, o contato do site está aberto para correções e novas informações.

Esta página traz informação confiável?

Cada dado histórico aparece com a fonte citada no fim do texto. Quando as fontes divergem ou faltam, dizemos isso de forma direta.

Veja também

Quer ouvir e cantar junto? Acompanhe o canal Música Brasileira Capoeira no YouTube.

Fontes: La Laue: Dandara; Wikipédia: Dandara; Wikipédia: Zumbi dos Palmares.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *