Volta do Mundo: o verso que encerra a louvação na capoeira

Jovens tocando tambores amarelos em um grupo percussivo

A “volta do mundo” é um verso tradicional da louvação, sem autor nomeado, e também um momento do jogo, em que um capoeirista percorre a roda. Aqui o foco é o verso ritual, e não uma canção protegida.

O termo tem dois usos que costumam se misturar na conversa de roda: o verso que se canta e o gesto que se faz. Entender a diferença ajuda a ler as fontes, que nem sempre concordam entre si, e a ouvir melhor o que acontece quando a louvação termina.

Mão tocando pandeiro
Imagem ilustrativa. Foto: Mauricio Gomes / Pexels

Como há versões gravadas com autoria incerta, não reproduzimos letras.

Ficha da cantiga

TermoVolta do mundo (ou “volta ao mundo”)
TipoVerso da louvação, não corrido autônomo
AutoriaTradição oral, sem autor nomeado
FunçãoEncerrar o canto e sinalizar o início do jogo, segundo Carneiro
DireitosIncertos nas versões gravadas

Para que serve

Segundo Édison Carneiro, citado por Reis, o verso encerra o canto e sinaliza o início do jogo, sem ser obrigatório. Mestre Bimba o usa com frequência para fechar suas louvações, e às vezes ele é gritado no fim de um corrido. A tese de Reis também registra a “volta ao mundo” como o último elemento de uma das louvações de Bimba, aquela do LP do mestre, mas ali o termo aparece sem explicação, apenas como o fecho do canto.

Onde a louvação entra na roda

Para situar o verso, vale lembrar a ordem em que os cantos aparecem. A Wikipédia em inglês descreve a roda em três tempos. Primeiro vem a ladainha, um canto solo que costuma ficar com o músico mais velho, em geral quem toca o gunga. Depois vem a louvação, também chamada chula, em que o cantor chama e o coro responde. Só então chegam os corridos, e é durante eles que os dois jogadores começam a jogar, a partir do pé do berimbau.

Reis confirma a sequência ladainha, louvação. Segundo ele, na louvação o solista canta e o coro repete, na forma “Ê, […], camarado”, e ela costuma abrir com fórmulas fixas, como “Água de beber”, que aparece no LP de Bimba. Para o autor, a louvação prolonga o tema da ladainha. Na obra de Bimba, esse tema é a educação: o discernimento, o saber que pode ferir e a proteção contra o perigo.

O ponto que importa aqui é simples. Se a louvação é o canto de saudação que vem antes do jogo, um verso que a encerra tem uma função natural de passagem. É isso que Carneiro descreve ao dizer que o verso sinaliza o início do jogo.

Quem conduz a roda

Nada disso acontece sem alguém que mande. A Wikipédia em inglês explica que o berimbau principal funciona como condutor da roda: ele abre e encerra a roda, escolhe quem joga, define o andamento e pode interromper o jogo ou acalmar os jogadores. Segundo o texto, em alguns grupos esse berimbau é o gunga e em outros é o médio.

O mesmo artigo lista os instrumentos da roda: até três berimbaus (gunga, médio e violinha), até dois pandeiros, um agogô, um reco-reco e um atabaque. Essa formação padrão teria se firmado a partir dos anos 1960, segundo a fonte, que também traz afirmações sem referência e que por isso tratamos com cautela.

O que vem antes e depois do verso

A ladainha, segundo Reis, é cantada enquanto os dois jogadores ficam agachados diante do berimbau, que dirige o jogo. O solista transmite uma mensagem, muitas vezes em forma de diálogo. A pergunta “Quem foi seu mestre?” abre a primeira ladainha do LP de Bimba. Outras ladainhas contam desafios, como a peleja de Manoel Riachão com o Diabo, do poeta Leandro Gomes de Barros, de cerca de 1899.

Os corridos, que vêm depois da louvação, têm outra marca: a resposta do coro. Reis lembra que eles tratam de temas variados, como migração, mar, a Guerra do Paraguai e Mestre Besouro Mangangá. Segundo a Wikipédia em inglês, o corrido empresta algo dos sambas de roda da Bahia e serve para comentar o jogo, animar, avisar ou ensinar. Há ainda a quadra, atribuída a Mestre Bimba, que em algumas escolas ocupa o lugar da ladainha.

Reis liga esse conjunto ao desafio sertanejo, com improviso e repertório decorado, num jogo de pergunta e resposta que ele atribui a Roberto Ventura, de 1991. Na visão de Pastinha, de 1964, citado pelo mesmo autor, o berimbau é o primeiro instrutor da capoeira. Para quem acompanha a roda, isso significa que a palavra, o som e o gesto trabalham juntos, e que o verso final da louvação é só uma peça dessa engrenagem.

Divergências

Sodré escreve “volta ao mundo” e diz que, na Angola, a fórmula lança o jogo. A Wikipédia em inglês a descreve como prática de antes do jogo nos anos 1960 e, de outro modo, como uma pausa em que um jogador percorre a roda. O mesmo artigo, porém, não traz o termo no trecho que consultamos, então não conseguimos confirmar essa descrição. Por isso afirmamos só que, em certas rodas de Angola, ela costuma lançar o jogo.

A confusão entre verso e gesto também aparece no vocabulário de quem treina. O gesto de percorrer a roda e o verso que anuncia o jogo recebem o mesmo nome, e o contexto é que diz de qual dos dois se fala.

Uma versão gravada

Uma página do Letras traz uma versão atribuída a Nêgo João, sem autor informado, em que o jogo aparece como imagem da vida, com vitória e queda. Essa versão pode ser protegida, e por isso não a citamos.

Como ouvir com mais atenção

Na próxima roda, vale prestar atenção em três momentos: a ladainha de abertura, a resposta do coro na louvação e a virada para os corridos. O verso final é a dobradiça entre o canto de saudação e o jogo. Vale ainda notar se o grupo grita o verso também no fim de algum corrido, como descreve Carneiro. Como o canto, o gesto e o toque formam um conjunto, o sentido do verso muda conforme a roda e o grupo, e Reis lembra que as mensagens dos toques de berimbau dependem do grupo.

Mais sobre a louvação

Veja a página sobre louvação e chula e o guia dos tipos de cantigas.

Perguntas frequentes

A volta do mundo é um corrido?

Segundo Reis, é um verso da louvação, não um corrido autônomo.

Quem escreveu?

Tradição oral, sem autor nomeado.

Para que serve o verso?

Segundo Carneiro, encerra o canto e sinaliza o início do jogo, sem ser obrigatório.

Qual é a ordem dos cantos na roda?

Ladainha, louvação e corridos, segundo a Wikipédia em inglês e Reis.

Volta do mundo e volta ao mundo são a mesma coisa?

As fontes usam as duas formas. Sodré escreve “volta ao mundo”, enquanto outras fontes escrevem “volta do mundo”. O sentido é o mesmo, e a diferença é só de grafia.

Veja também

Quer ouvir e cantar junto? Acompanhe o canal Música Brasileira Capoeira no YouTube.

Fontes: Reis, cap. 6; Letras: Volta do Mundo (Nêgo João); Wikipedia: Capoeira music.

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