A “volta do mundo” é um verso tradicional da louvação, sem autor nomeado, e também um momento do jogo, em que um capoeirista percorre a roda. Aqui o foco é o verso ritual, e não uma canção protegida.
O termo tem dois usos que costumam se misturar na conversa de roda: o verso que se canta e o gesto que se faz. Entender a diferença ajuda a ler as fontes, que nem sempre concordam entre si, e a ouvir melhor o que acontece quando a louvação termina.

Como há versões gravadas com autoria incerta, não reproduzimos letras.
Ficha da cantiga
| Termo | Volta do mundo (ou “volta ao mundo”) |
| Tipo | Verso da louvação, não corrido autônomo |
| Autoria | Tradição oral, sem autor nomeado |
| Função | Encerrar o canto e sinalizar o início do jogo, segundo Carneiro |
| Direitos | Incertos nas versões gravadas |
Para que serve
Segundo Édison Carneiro, citado por Reis, o verso encerra o canto e sinaliza o início do jogo, sem ser obrigatório. Mestre Bimba o usa com frequência para fechar suas louvações, e às vezes ele é gritado no fim de um corrido. A tese de Reis também registra a “volta ao mundo” como o último elemento de uma das louvações de Bimba, aquela do LP do mestre, mas ali o termo aparece sem explicação, apenas como o fecho do canto.
Onde a louvação entra na roda
Para situar o verso, vale lembrar a ordem em que os cantos aparecem. A Wikipédia em inglês descreve a roda em três tempos. Primeiro vem a ladainha, um canto solo que costuma ficar com o músico mais velho, em geral quem toca o gunga. Depois vem a louvação, também chamada chula, em que o cantor chama e o coro responde. Só então chegam os corridos, e é durante eles que os dois jogadores começam a jogar, a partir do pé do berimbau.
Reis confirma a sequência ladainha, louvação. Segundo ele, na louvação o solista canta e o coro repete, na forma “Ê, […], camarado”, e ela costuma abrir com fórmulas fixas, como “Água de beber”, que aparece no LP de Bimba. Para o autor, a louvação prolonga o tema da ladainha. Na obra de Bimba, esse tema é a educação: o discernimento, o saber que pode ferir e a proteção contra o perigo.
O ponto que importa aqui é simples. Se a louvação é o canto de saudação que vem antes do jogo, um verso que a encerra tem uma função natural de passagem. É isso que Carneiro descreve ao dizer que o verso sinaliza o início do jogo.
Quem conduz a roda
Nada disso acontece sem alguém que mande. A Wikipédia em inglês explica que o berimbau principal funciona como condutor da roda: ele abre e encerra a roda, escolhe quem joga, define o andamento e pode interromper o jogo ou acalmar os jogadores. Segundo o texto, em alguns grupos esse berimbau é o gunga e em outros é o médio.
O mesmo artigo lista os instrumentos da roda: até três berimbaus (gunga, médio e violinha), até dois pandeiros, um agogô, um reco-reco e um atabaque. Essa formação padrão teria se firmado a partir dos anos 1960, segundo a fonte, que também traz afirmações sem referência e que por isso tratamos com cautela.
O que vem antes e depois do verso
A ladainha, segundo Reis, é cantada enquanto os dois jogadores ficam agachados diante do berimbau, que dirige o jogo. O solista transmite uma mensagem, muitas vezes em forma de diálogo. A pergunta “Quem foi seu mestre?” abre a primeira ladainha do LP de Bimba. Outras ladainhas contam desafios, como a peleja de Manoel Riachão com o Diabo, do poeta Leandro Gomes de Barros, de cerca de 1899.
Os corridos, que vêm depois da louvação, têm outra marca: a resposta do coro. Reis lembra que eles tratam de temas variados, como migração, mar, a Guerra do Paraguai e Mestre Besouro Mangangá. Segundo a Wikipédia em inglês, o corrido empresta algo dos sambas de roda da Bahia e serve para comentar o jogo, animar, avisar ou ensinar. Há ainda a quadra, atribuída a Mestre Bimba, que em algumas escolas ocupa o lugar da ladainha.
Reis liga esse conjunto ao desafio sertanejo, com improviso e repertório decorado, num jogo de pergunta e resposta que ele atribui a Roberto Ventura, de 1991. Na visão de Pastinha, de 1964, citado pelo mesmo autor, o berimbau é o primeiro instrutor da capoeira. Para quem acompanha a roda, isso significa que a palavra, o som e o gesto trabalham juntos, e que o verso final da louvação é só uma peça dessa engrenagem.
Divergências
Sodré escreve “volta ao mundo” e diz que, na Angola, a fórmula lança o jogo. A Wikipédia em inglês a descreve como prática de antes do jogo nos anos 1960 e, de outro modo, como uma pausa em que um jogador percorre a roda. O mesmo artigo, porém, não traz o termo no trecho que consultamos, então não conseguimos confirmar essa descrição. Por isso afirmamos só que, em certas rodas de Angola, ela costuma lançar o jogo.
A confusão entre verso e gesto também aparece no vocabulário de quem treina. O gesto de percorrer a roda e o verso que anuncia o jogo recebem o mesmo nome, e o contexto é que diz de qual dos dois se fala.
Uma versão gravada
Uma página do Letras traz uma versão atribuída a Nêgo João, sem autor informado, em que o jogo aparece como imagem da vida, com vitória e queda. Essa versão pode ser protegida, e por isso não a citamos.
Como ouvir com mais atenção
Na próxima roda, vale prestar atenção em três momentos: a ladainha de abertura, a resposta do coro na louvação e a virada para os corridos. O verso final é a dobradiça entre o canto de saudação e o jogo. Vale ainda notar se o grupo grita o verso também no fim de algum corrido, como descreve Carneiro. Como o canto, o gesto e o toque formam um conjunto, o sentido do verso muda conforme a roda e o grupo, e Reis lembra que as mensagens dos toques de berimbau dependem do grupo.
Mais sobre a louvação
Veja a página sobre louvação e chula e o guia dos tipos de cantigas.
Perguntas frequentes
A volta do mundo é um corrido?
Segundo Reis, é um verso da louvação, não um corrido autônomo.
Quem escreveu?
Tradição oral, sem autor nomeado.
Para que serve o verso?
Segundo Carneiro, encerra o canto e sinaliza o início do jogo, sem ser obrigatório.
Qual é a ordem dos cantos na roda?
Ladainha, louvação e corridos, segundo a Wikipédia em inglês e Reis.
Volta do mundo e volta ao mundo são a mesma coisa?
As fontes usam as duas formas. Sodré escreve “volta ao mundo”, enquanto outras fontes escrevem “volta do mundo”. O sentido é o mesmo, e a diferença é só de grafia.
Veja também
- Nomes das músicas de capoeira: ladainha, chula e corrido
- Capoeira e a música: origens, funções e instrumentos
- Capoeira: a história que dança ao som do berimbau
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Fontes: Reis, cap. 6; Letras: Volta do Mundo (Nêgo João); Wikipedia: Capoeira music.