Ao pé de mim tem um vizinho aparece entre os cantos registrados em gravações de Mestre Bimba desde 1940 e ficou ligada à voz do mestre. Não é um corrido de coro fácil: traz para a roda uma discussão sobre riqueza e pobreza.
O interesse da cantiga está na origem. Segundo a pesquisa de Leonardo Abreu Reis, seus versos vêm de um folheto de cordel do final do século XIX. Abaixo estão o que as fontes abertas permitem afirmar, o que fica como não confirmado e onde procurar a letra, que não é reproduzida aqui.
| Título | Ao pé de mim tem um vizinho |
| Tipo | Ladainha ou louvação (as fontes divergem; ver abaixo) |
| Autoria | Verso de cordel de Leandro Gomes de Barros, c. 1899, segundo Reis; adaptação para a capoeira de autor não confirmado |
| Gravações | Mestre Bimba (registro de 1940, CD e LP); transcrição de Waldeloir Rego (1968) |
| Tema | Desigualdade social e fé, a partir da peleja entre o cantador Riachão e o Diabo |
| Direitos | Letra protegida, não reproduzida |
Origem e autoria
Na tese Cantos de capoeira: fonogramas e etnografias no diálogo da tradição (PUC-Rio, 2009), Leonardo Abreu Reis mostra que os versos pertencem à Peleja de Manuel Riachão com o Diabo, cordel atribuído a Leandro Gomes de Barros por volta de 1899. Reis cita o canto entre as referências ao cordel no cancioneiro da capoeira e o associa a Mestre Bimba, que o repete em várias gravações.
Os registros citados por ele são: a gravação de Bimba de 1940 (faixa 3), o CD e o LP de Bimba, e a transcrição de Waldeloir Rego, que Reis data ora de 1968, ora de 1969 em pontos diferentes do texto. Rego numera o canto como o 98 de sua coletânea, na página 116. Quem fez a gravação de 1940 e quem adaptou os versos do cordel para a roda não aparece nas páginas consultadas, e fica não confirmado.
O cordel em si foi reeditado em 2017 na revista Patrimônio e Memória (UNESP, Assis). A edição descreve um duelo cantado entre o cantador Riachão e um desconhecido negro que se suspeita ser o Diabo, em estrofes de dez versos de dez sílabas, o chamado martelo. Essa edição não menciona a capoeira, de modo que a ponte entre os dois mundos vem apenas dos estudos sobre o cancioneiro.
O que a cantiga conta
Pelo comentário de Reis, os versos tratam de desigualdade social. Na peleja, o Diabo questiona a ideia de que pobreza e riqueza seriam merecimento dado por Deus, e Reis liga essa fala a um imaginário que considera quase revolucionário. Riachão, apesar da provocação, mantém a fé. A cantiga, então, não conta uma história de capoeira: leva para dentro da roda um debate de cantadores sertanejos.
Isso explica por que ela convive bem com outras ladainhas tiradas da mesma peleja, como Riachão tava cantando, tratada em outro artigo do site (Riachão tava cantando). No comentário sobre a execução de Bimba, Reis anota a pronúncia mais correta do mestre e o ataque do canto com o grito "Iê".
Como aparece na roda
Reis não diz em que momento exato esse canto é puxado, mas associa as ladainhas da peleja ao início do ritual, quando os jogadores estão agachados diante do berimbau, esperando a entrada. Esse é o lugar tradicional da ladainha na roda, que depois abre espaço para a louvação e para o corrido.
A classificação não é unânime. Em um capítulo, Reis lista o canto entre as ladainhas; em outro, entre as louvações. O toque do berimbau usado durante a execução não é informado nas fontes: não confirmado. Sobre a diferença entre as formas, leia ainda louvação e chula.
Onde ler a letra
Não encontrei uma página própria da cantiga no Letras. O que existe é a página de Mestre Bimba no Letras, que reúne outras faixas do mestre, e a coletânea de Waldeloir Rego de 1968, que traz a transcrição. A letra está protegida por direitos autorais e não é reproduzida neste texto. O cordel, em edição de 2017, está em acesso aberto na revista da UNESP.
Perguntas frequentes
A cantiga é de Mestre Bimba?
Bimba é o intérprete mais associado a ela, mas as fontes não o apontam como autor. Reis atribui os versos ao cordel de Leandro Gomes de Barros, c. 1899.
É ladainha ou louvação?
Depende do capítulo de Reis: aparece nos dois grupos. Não há consenso nas fontes consultadas.
Quando Bimba gravou?
Reis cita um registro de 1940, além de CD e LP. Não achei quem realizou a gravação de 1940 nem o selo do LP, então esses dados seguem não confirmados.
Veja também
Fontes: REIS, Leonardo Abreu. Cantos de capoeira (PUC-Rio, 2009), folha de rosto | Reis, cap. 6, ecos poéticos dos cantos | Reis, coletânea de cantos | Peleja de Manuel Riachão com o Diabo, Patrimônio e Memória, UNESP, 2017 | Texto do cordel, UNESP | Letras, Mestre Bimba