Eu tava em casa: a ladainha do homem chamado para a guerra

Capoeiristas tocando berimbau e atabaque em praça

“Eu tava em casa” não é uma cantiga só, e sim uma família de ladainhas. Em todas as versões, um homem sossegado na própria casa é chamado para uma guerra ou para um desafio que ele não pode recusar. Os registros de Waldeloir Rego (1968), Mestre Traíra (LP de 1962), Mestre Bimba e Mestre Pastinha (LP de 1969) mostram como o mesmo começo ganhou finais diferentes.

A pergunta que acompanha essa família é qual guerra está por trás dos versos. A tese de Reis e outras fontes oferecem pistas, mas nenhuma delas fecha o caso, e aqui separamos o que está documentado do que é hipótese.

Capoeirista em movimento de jogo diante de casarões
Imagem ilustrativa. Foto: Priscila Almeida / Pexels

Aqui explicamos o sentido, as versões e as leituras históricas, sem reproduzir as letras. As versões de tradição oral não têm autor, mas uma cantiga ligada a esta família, “Cidade de Assunção”, é creditada a Mestre Pastinha, e por isso tratamos tudo com cautela.

Ficha da cantiga

FamíliaEu tava em casa (e variantes, como “Estava na minha casa”)
TipoLadainha, segundo Reis
RegistrosRego 1968 (nº 60 e nº 103); LP de Traíra, 1962; LP de Bimba; LP de Pastinha, 1969
AutoriaTradição oral nas versões de Rego, Traíra e Bimba; “Cidade de Assunção” creditada a Pastinha
DireitosLetras não reproduzidas

Uma ladainha, várias versões

Segundo a tese de Frederico Abreu Reis, cada gravação leva o título do primeiro verso. Rego registrou duas versões, uma delas com a frase “Estava em casa” e outra com “Eu tava na minha casa”. Bimba gravou a sua no LP Curso de Capoeira Regional, Traíra abriu o próprio disco com outra, e Pastinha incluiu uma quinta no LP de 1969. A data do disco de Bimba é incerta: Reis fala em 1962, e o encarte da reedição em CD indica 1963.

A versão do LP de Pastinha é atribuída a Waldomiro Malvadeza, mas só como hipótese de Reis. O crédito do disco não foi confirmado.

O que a ladainha conta

Na versão de Rego, o homem está em casa, sem pensar em nada, quando é chamado por Salomão para ajudar a vencer uma “batalha liberal”. Ele diz que nunca viajou, oferece o nome ao sorteio militar e fecha com uma máxima sobre mandinga e patuá. Quem é Salomão, e o que seria essa batalha, Reis não explica.

Na versão de Traíra, o convocado cita províncias como Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará, recusa levar a mandinga e desconfia da medalha que lhe prometem. A versão de Pastinha é mais pessoal, com um irmão, uma briga em que ninguém ganha e uma infância em Salvador.

Guerra do Paraguai ou outra guerra?

Para Reis, o desafio dessas ladainhas é a guerra, e o rio Paraná se torna símbolo do deslocamento guerreiro. Ele relaciona a guerra do Paraguai, mas também levanta a Segunda Guerra Mundial e, em nota, a Primeira Guerra, por causa do vapor brasileiro Paraná, torpedeado em 1917. São hipóteses, e não datas de composição.

Outras fontes ajudam só em parte. Um artigo de Carlos Caso Bustillo conclui que capoeiras provavelmente lutaram na guerra do Paraguai (1864 a 1870), entre os Voluntários da Pátria e os Zuavos, mas diz que as provas diretas são raras. O site Papoeira liga o Paraná à mesma guerra, ao envio de escravizados ao front e à promessa de liberdade, mas fala de outra cantiga, Paranauê.

O que a história da guerra permite dizer

Segundo a Wikipédia, a guerra durou de dezembro de 1864 a março de 1870 e opôs o Paraguai à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai. O tratado aliado foi assinado em segredo, em Buenos Aires, em 1º de maio de 1865. Solano López morreu em Cerro Corá em 1º de março de 1870.

Os rios importam para a leitura de Reis. Na região, os rios eram as principais vias, e a Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, no rio Paraná, destruiu a marinha paraguaia e deu aos aliados o controle das águas da bacia do Prata. Isso ajuda a entender por que o Paraná aparece como símbolo, embora a ladainha não prove essa ligação.

Quanto ao recrutamento, a mesma fonte conta 55.985 Voluntários da Pátria e 8.570 ex-escravizados libertados para servir. Relatos brasileiros os descrevem como voluntários, enquanto relatos argentinos e paraguaios falam em recrutamento forçado, em grande parte de escravizados e trabalhadores pobres. Os números de mortos são muito contestados; para o Brasil, a Wikipédia fala em cerca de 50 mil militares, e dois terços deles morreram em hospitais ou nas marchas, principalmente de doenças como a cólera. A fonte também apresenta números diferentes em seções distintas para o total de brasileiros que lutaram, o que mostra a incerteza.

O homem que “nunca viajou” e oferece o nome ao sorteio militar combina com esse cenário de recrutamento, mas é uma associação nossa, e não um dado de Reis.

Capoeiras na guerra

O artigo de Caso Bustillo descreve a guerra como uma sucessão de combates a curta distância, como em Curuzú, Riachuelo e Itororó, onde faltou munição e a luta ficou corpo a corpo. Os Voluntários da Pátria e os Zuavos recrutaram sobretudo em setores populares e afrodescendentes, o que o autor atribui ao funcionamento do recrutamento, e não a uma busca por lutadores.

Dois nomes são tradicionalmente ligados à capoeira: o sargento Marcolino José Díaz, descrito como ágil em Curuzú, e o marinheiro Marcílio Dias, que teria lutado até a morte em Riachuelo. O autor ressalva que não se pode afirmar que usassem capoeira em sentido estrito. Ele também nota que as prisões de capoeiras caíram nos anos mais intensos da guerra, o que sustenta a hipótese de recrutamento forçado, e que Rego (1968) transcreve uma cantiga sobre o conflito. A conclusão é prudente: capoeiras provavelmente estiveram na frente, mas não há prova direta.

O desafio que não se recusa

Reis lê a convocação como metáfora do jogo: quem entra na roda recebe um desafio e não pode fugir dele. É uma leitura dele, e não um fato histórico. O mesmo tema de desconfiança diante do chamado da pátria aparece em outras ladainhas do corpus, como “A soberba combatida”.

Para ver como a ladainha funciona na roda, leia a página sobre a ladainha, e para outra ladainha que mistura história e desafio, Riachão Tava Cantando.

O que falta confirmar

Não confirmamos quem é Salomão nesta cantiga, o sentido de “batalha liberal” e “medalha liberal”, nem o autor real da versão do LP de Pastinha. Reis não encontrou outras fontes abertas sobre os versos desta família. Também não sabemos a data em que o começo “eu tava em casa” se fixou, nem se uma versão veio antes das outras.

Perguntas frequentes

Eu tava em casa é uma só cantiga?

Não. É uma família de ladainhas com várias versões gravadas por Traíra, Bimba e Pastinha e registradas por Rego.

Fala da guerra do Paraguai?

Reis e o Papoeira ligam o tema a essa guerra, mas a data de composição não é conhecida. Há também leituras ligadas às guerras mundiais.

Quem compôs?

Nas versões de Rego, Traíra e Bimba, a tradição oral. “Cidade de Assunção”, ligada à família, é creditada a Mestre Pastinha.

Capoeiras lutaram mesmo na guerra do Paraguai?

Provavelmente sim, segundo Caso Bustillo, mas as provas diretas são raras.

Veja também

Quer ouvir e cantar junto? Acompanhe o canal Música Brasileira Capoeira no YouTube.

Fontes: Reis, tese PUC-Rio, capítulos 4 a 6; Capoeira History: Capoeira in the Paraguayan War; Papoeira: Paranauê, Paraná; Wikipédia: Guerra do Paraguai.

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