“Acabe com este santo, Pedrito vem aí” e “Toca o pandeiro, sacode o caxixi” são duas cantigas populares que Waldeloir Rego colocou entre os cantos de capoeira em 1968. As duas falam de Pedrito, o policial baiano que perseguiu candomblés e capoeiristas nos anos 1920.
Não são cantigas de glória. São cantigas de aviso, daquelas que passam de boca em boca para que todos saiam a tempo. Entender quem era Pedrito e como a perseguição funcionava explica por que um nome de delegado ficou guardado na memória musical da Bahia.

São tradição oral, sem autor creditado e sem gravação confirmada. Por isso a letra não é reproduzida. Um ponto de cuidado: a segunda cantiga talvez nem tenha sido cantada em roda, e o pesquisador Frederico Abreu Reis só conhece a primeira pelo ensino de um mestre.
Ficha da cantiga
| Títulos | Toca o pandeiro, sacode o caxixi (nº 19) e Acabe com este santo, Pedrito vem aí (nº 21) |
| Tipo | Corrido, por classificação de Reis (a métrica indica, o coro não é explicitado) |
| Registro | Waldeloir Rego, 1968 |
| Autoria | Tradição popular, sem autor creditado |
| Gravações | Nenhuma confirmada |
| Direitos | Letra não reproduzida |
Quem era Pedrito
Pedro de Azevedo Gordilho, o “Pedrito”, foi delegado em Salvador nos anos 1920. Um artigo da Revista Brasileira de História da Ciência o descreve como um dos mais violentos e temidos, e conta que em 20 de maio de 1920 ele comandou uma batida no terreiro de Matatu Grande, em Brotas. Jorge Amado se inspirou nele para o vilão Pedrito Gordo de “Tenda dos Milagres”, romance de 1969, segundo uma entrevista publicada no Goethe-Institut.
Rego e Reis o chamam de chefe de polícia, enquanto outras fontes dizem delegado. A função exata e o período no cargo não estão confirmados. Não se deve confundir com Oswaldo Veloso Gordilho, administrador de Salvador nos anos 1950. O artigo da Revista cita ainda Lühning (1996) para lembrar que real e lendário se misturam na história dele: os relatos orais o cercam de mitos, e as únicas provas concretas são os objetos de culto apreendidos.
A batida de 1920 em Matatu Grande
O jornal A Manhã noticiou a diligência de 20 de maio de 1920, justificada pelo barulho da festa. Segundo a Revista, os policiais cercaram o local à 1h da madrugada e levaram os participantes à cadeia. Eles foram soltos depois, mas os objetos de culto foram apreendidos e, provavelmente, enviados ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O terreiro Ogunjá, em Matatu, ainda existe.
Lühning relata ainda outra invasão, em que Gordilho, armado com uma pistola, mandou espancar os presentes e ameaçou acabar com o culto “a chicote e a pata de cavalo”. O Goethe-Institut menciona também que, em 1920, a polícia invadiu o terreiro de Jubiabá e levou o trono do babalorixá, exibido como troféu, que só voltou ao terreiro em 2015.
Como funcionava a perseguição
Segundo a Revista, a polícia costumava prender a maior parte dos presentes, que passavam a noite na delegacia e eram liberados no dia seguinte, quase sempre sem motivo legal claro. Objetos sagrados eram destruídos ou levados ao Instituto, onde eram chamados de forma pejorativa. Muitos casos não geravam inquérito: eram tratados como contravenção e resolvidos com fiança.
A base legal vinha do Código Penal de 1890, cujo artigo 157 proibia práticas de magia e espiritismo que visassem curas ou enganassem a população. A imprensa, como A Manhã e o Diário de Notícias, cobria as batidas de forma sensacionalista, e a polícia usava essa exposição como forma de constrangimento. A repressão a esses cultos aparece na pesquisa de 1920 a 1942.
Em 1938, segundo a Revista, foi criada a Delegacia Especial de Jogos e Costumes, para reprimir esses crimes com mais rigor. Peças apreendidas nas batidas estão hoje no Museu Estácio de Lima, junto ao Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues. A psiquiatria baiana, organizada no Asilo São João de Deus, fundado em 1873, e depois no Hospital Juliano Moreira, nome dado em 1936, também entrou nessa história, porque pais e mães de santo iam buscar seus “doentes” no hospital. Pedrito, portanto, era a face mais visível de um sistema maior, e as cantigas guardam o nome do homem, não do sistema.
O que as cantigas dizem
A primeira manda o músico tocar depressa, porque a polícia está chegando. A segunda pede para acabar com o “santo”, ou seja, com o culto, porque Pedrito vem aí. Há ainda uma terceira cantiga vizinha, sobre o candomblé de Procópio, que opõe o terreiro à violência do delegado.
O título do trabalho de Angela Lühning, “Acabe com este santo, Pedrito vem aí”, sobre a perseguição policial ao candomblé entre 1920 e 1942, confirma que a frase era um aviso conhecido. Não consultamos o texto dela.
O toque de cavalaria
Reis lembra que existe um toque de berimbau chamado cavalaria, que avisava da chegada da polícia montada. Ele aparece no começo da faixa 5 do LP de Traíra, do início dos anos 1960. Outro toque, o aviso, servia de sentinela contra a chegada do senhor de engenho, do capitão do mato ou da polícia, segundo Canjiquinha, que o aprendeu com Aberrê. Veja mais em bateria e toques.
A lógica é a mesma das cantigas: avisar sem dizer, para que a roda se desfaça ou se disfarce antes que a polícia chegue. Em outras palavras, a música era também um sistema de alerta.
Capoeira ou cantiga popular?
Aqui as fontes pedem cuidado. Rego não diz que as cantigas são de capoeira. Elas foram recolhidas por Camargo Guarnieri junto ao povo baiano e publicadas por Alvarenga em 1946. Por isso preferimos dizer que são cantigas populares que Rego colocou entre os cantos de capoeira. Para o glossário de nomes e toques, veja o Glossário da capoeira.
Candomblé e capoeira sob o mesmo olhar
A perseguição não separava os dois mundos. Segundo o Goethe-Institut, o Código Penal enquadrava a capoeira como vadiagem, e o início da República trouxe um racismo com verniz pseudocientífico, com defesa da eugenia e do branqueamento. Na Bahia, a psiquiatria também legitimou a repressão: segundo a Revista, candomblecistas eram frequentemente internados como loucos. A liberdade religiosa só foi garantida na Constituição de 1946, que citou nominalmente os cultos de matriz africana, por proposta de Jorge Amado, então deputado, segundo o Goethe-Institut.
O que falta confirmar
Não achamos o informante da primeira cantiga, a existência de um canto de roda para a segunda, nem os anos exatos de Pedrito no cargo.
Perguntas frequentes
Quem era Pedrito?
Pedro de Azevedo Gordilho, delegado de Salvador nos anos 1920, conhecido pelas batidas contra terreiros e capoeiristas.
A cantiga é de capoeira?
Rego a incluiu entre os cantos de capoeira, mas as fontes a descrevem como cantiga popular.
O que é o toque de cavalaria?
Um toque que avisava a chegada da polícia montada, segundo Reis e Rego.
Pedrito inspirou algum personagem?
Sim. Jorge Amado o usou como modelo do vilão Pedrito Gordo, em Tenda dos Milagres.
Veja também
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- Os 50 maiores cantadores de capoeira do mundo e seus álbuns
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Fontes: Reis, tese PUC-Rio, capítulos 4 e 5; Revista Brasileira de História da Ciência; Goethe-Institut: O medo é o motor do racismo religioso.