Arrancado de Lá Luanda: cantiga de Toni Vargas sobre a África

Dois capoeiristas jogando na rua com atabaques ao fundo

“Arrancado de Lá Luanda”, também citada como “Quando Eu Venho de Luanda”, é uma cantiga de Mestre Toni Vargas sobre o sequestro de africanos e a dignidade da África. É a única das cantigas do autor nesta série com um ano de lançamento indicado, 1997, e mesmo esse ano pede cautela.

O texto abaixo explica o que a cantiga denuncia, quem é o autor e em que movimento de ideias esse tipo de canto nasceu, sempre separando o que as fontes confirmam do que é interpretação.

Capoeiristas jogando diante de arco de pedra com bateria
Imagem ilustrativa. Foto: Tahir Xəlfəquliyev / Pexels

A obra é protegida. O que segue é o contexto, sem letra.

Ficha da cantiga

TítuloArrancado de Lá Luanda (Quando Eu Venho de Luanda)
AutorMestre Toni Vargas (crédito no Letras)
GravaçãoCD do Centro Cultural Senzala de Capoeira, 1997 (título do álbum não confirmado)
TemaSequestro de africanos e dignidade da África
DireitosProtegida

Memória do sequestro

Segundo Quadros, a cantiga denuncia o sequestro e a escravização de africanos e apresenta a África como fonte de dignidade, identidade e força espiritual. A leitura é da autora do artigo, e o Letras não traz explicação oficial.

Luanda, hoje capital de Angola, foi um dos grandes portos de embarque de africanos escravizados para o Brasil. A data de fundação tem duas versões nas fontes: o La Laue fala em 1575, e a Wikipédia em português registra 25 de janeiro de 1576 como a fundação da vila de São Paulo da Assunção de Loanda, com a chegada de Paulo Dias de Novais à ilha em fevereiro de 1575. As duas podem descrever momentos diferentes do mesmo processo. A economia da cidade girou, desde a origem, quase só em torno do comércio de escravizados, e por isso o título pesa tanto numa roda de capoeira, cujo estilo mais tradicional leva o nome Angola.

Entre 1641 e 1648 os holandeses ocuparam Luanda. A reconquista, em 1648, comandada por Salvador Correia de Sá, reabriu o fluxo para o Brasil. A Wikipédia fala em sete mil pessoas embarcadas logo depois, número pontual que não representa o total do tráfico.

Sobre o ano de 1997

O CD do Centro Cultural Senzala de Capoeira aparece com data de 1997 no artigo, mas a autora avisa que as datas das cantigas foram deduzidas de relatos dos mestres, e não de registros firmes. O título do álbum também não foi confirmado, e o Last.fm e o La Laue falam em quatro álbuns sem nomeá-los.

Quem é Mestre Toni Vargas

Segundo o La Laue, Toni Vargas nasceu no Rio de Janeiro em 5 de abril de 1958 e começou a praticar capoeira aos 10 anos, com Mestre Rony, do Grupo Palmares de Capoeira. Em meados dos anos 1970 passou ao Grupo Corda Bamba, com Mestre Touro. Alguns anos depois treinou com Mestre Peixinho no Grupo Senzala, onde recebeu em 1985 o primeiro grau de formado do grupo.

A página o descreve como mestre do Grupo Senzala e músico reconhecido, autor de muitos cantos tocados nas rodas e conhecido pela voz grave. Ela lista sete cantigas de autoria dele: Alforriado, Antigamente, Banguela ou Benguela, Dona Isabel que história é essa, Me leva morena, Meu mestre é pequenininho e É a Regional. Também fala em quatro álbuns, sem dar títulos ou datas.

Há lacunas que convém registrar: a página não dá a data em que ele entrou no Senzala nem a em que virou mestre, e a cronologia dos anos 1970 é aproximada. O Centro Cultural Senzala de Capoeira aparece como afiliado, sem detalhar o vínculo exato com o Grupo Senzala.

Um canto dentro de um movimento

O artigo de Camila Quadros, doutoranda em história na UFPR e capoeirista em Curitiba, vem de sua dissertação de mestrado de 2021. A tese central é que as cantigas da capoeira contemporânea, surgidas por volta dos anos 1970 e 1980, dialogam com o Movimento Negro brasileiro do fim do século XX. Elas retomam seus discursos, como a rejeição do 13 de maio de 1888 e a valorização dos quilombos.

O corpus inclui músicas de mestres de grupos diferentes, como Toni Vargas, do Senzala, Moraes, do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, Barrão, do Axé, e Mão Branca, do Capoeira Gerais. Quadros as analisa como fontes históricas e não reproduz as letras.

O contexto dado por ela inclui a fundação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial em 4 de novembro de 1978, em Salvador, e a escolha do 20 de novembro como dia nacional da consciência negra. A autora cita ainda o quilombismo, conceito de Abdias do Nascimento publicado em 1980, e lembra que o artigo 402 do Código Penal de 1890 criminalizava a capoeira. Entre as cantigas de Toni Vargas que ela analisa estão Dona Isabel, que critica a abolição e exalta Zumbi, e Dor, dor, dor, sobre a memória da escravidão e o racismo de hoje.

Quadros é franca sobre os limites: não entrevistou os mestres, então não confirma a ligação deles com o ativismo negro. As datas são aproximadas, porque a capoeira é sobretudo oral. E a análise não vale para todos os grupos, já que a capoeira é muito diversa.

Datas que ajudam a situar o movimento

Quadros reúne alguns marcos que ajudam a ler o repertório. Em 1944 foi fundado o Teatro Experimental do Negro. Em 1971, o Grupo Palmares, do Rio Grande do Sul, já contestava o 13 de maio. O manifesto do Movimento Negro Unificado dá 1595 a 1695 como o período da República de Palmares, o que reforça a escolha do 20 de novembro, data da morte de Zumbi, como símbolo. E, em 1980, o texto de Abdias do Nascimento sobre o quilombismo foi apresentado ligado ao 2º Congresso de Cultura Negra das Américas, no Panamá.

Nenhum desses marcos prova a origem de uma cantiga específica, mas mostram o clima de ideias em que cantigas como a de Toni Vargas circulavam nas rodas.

Uso responsável

Por ser uma obra com autor, não publicamos a letra. Se você é professor ou grupo, procure o CD ou os canais oficiais. Para entender o contexto da capoeira, leia nossa história da capoeira. A biografia do autor também aparece no artigo sobre tipos de cantigas, que explica o contexto de outra cantiga do mesmo autor.

Perguntas frequentes

Quem escreveu Arrancado de Lá Luanda?

Mestre Toni Vargas, segundo o Letras.

De que ano é?

O artigo de Quadros cita 1997, mas avisa que as datas são deduzidas de relatos dos mestres.

O que Luanda representa?

Um dos portos de embarque de africanos escravizados para o Brasil. A data de fundação varia: 1575 no La Laue e 1576 na Wikipédia.

Quando nasceu Toni Vargas?

Em 5 de abril de 1958, no Rio de Janeiro, segundo o La Laue.

Qual é a ligação com o Movimento Negro?

Segundo Quadros, as cantigas dos anos 1970 e 1980 retomam discursos do movimento, como a crítica ao 13 de maio. Ela mesma avisa que não entrevistou os mestres.

Veja também

Quer ouvir e cantar junto? Acompanhe o canal Música Brasileira Capoeira no YouTube.

Fontes: Quadros, artigo sobre cantigas e Movimento Negro (ANPUH, 2024); La Laue: Mestre Toni Vargas; Letras: Arrancado de Lá Luanda; Wikipédia: Luanda.

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